Produtor cultural Uillian Santiago apresenta proposta de governança do patrimônio cultural em Simpósio do ICOMOS Brasil, em Belém

Participação em evento nacional, realizado em Belém, levou ao debate uma proposta que integra memória, governança, tecnologia e experiências desenvolvidas em municípios mineiros

O produtor cultural, pesquisador e documentarista Uillian Santiago participou do 9º Simpósio Científico do ICOMOS Brasil, realizado em Belém, no Pará, entre os dias 25 e 28 de agosto de 2026. Durante o evento, apresentou o trabalho “Patrimônio como Sistema: Memória, Governança e Transformação Digital”, inserido no eixo dedicado aos desafios contemporâneos da preservação do patrimônio cultural.

Membro do ICOMOS Brasil e diretor da Cultura das Gerais, Uillian levou ao encontro uma reflexão construída a partir de sua trajetória na gestão pública e da experiência de consultoria desenvolvida junto a municípios de Minas Gerais.

O trabalho parte da constatação de que as políticas de preservação produzem uma grande quantidade de informações: inventários, dossiês, atas, fotografias, laudos, pesquisas, projetos, relatórios e registros de intervenções. Entretanto, esses documentos frequentemente permanecem dispersos entre diferentes setores, computadores, arquivos e equipes. Com as mudanças de governos, servidores e conselheiros, parte importante da memória institucional pode se perder ou deixar de orientar novas decisões.

“Quem guarda a memória das decisões, das pesquisas, das intervenções, das fotografias, dos inventários e das pessoas que participaram? E como fazer para que essa memória atravesse governos, servidores, conselhos, computadores e gerações?”, questionou Uillian durante a apresentação.

A partir dessa provocação, o produtor cultural defendeu que um dos principais desafios atuais não está apenas na falta de informação, mas na dificuldade de relacionar e utilizar o conhecimento que já foi produzido. Por isso, propõe compreender o patrimônio cultural como um sistema formado pelas conexões entre comunidade, instrumentos de proteção, documentação técnica, conselhos municipais, intervenções, ações de salvaguarda, acompanhamento e decisões administrativas.

Nessa perspectiva, sistema não significa simplesmente um programa de computador. O sistema está nas relações estabelecidas entre pessoas, instituições, documentos, práticas culturais e bens protegidos. A tecnologia aparece como uma ponte capaz de fortalecer essas relações e dar continuidade ao trabalho de preservação.

Digitalizar não é conectar

Outro ponto central da apresentação foi a diferença entre digitalização e transformação digital. Apenas converter documentos físicos em arquivos digitais não garante que as informações estejam organizadas, acessíveis ou integradas.

A transformação digital acontece quando o conhecimento passa a trabalhar em favor da gestão: quando é possível localizar informações, relacionar documentos, acompanhar providências, identificar responsabilidades, registrar mudanças e recuperar o histórico de decisões sobre determinado bem cultural.

Para Uillian, a governança do patrimônio significa desenvolver a capacidade institucional de saber o que existe, onde estão as informações, quem é responsável, o que já foi decidido e quais providências ainda precisam ser adotadas.

“Preservar não é congelar. É conseguir acompanhar. Um sistema talvez não impedisse uma demolição, mas mudaria completamente a capacidade institucional de responder”, destacou.

Experiências municipais levadas ao debate nacional

As reflexões apresentadas em Belém foram construídas a partir da realidade dos municípios, especialmente das dificuldades enfrentadas por cidades de pequeno porte na organização de suas políticas culturais.

A atuação da Cultura das Gerais junto a prefeituras, conselhos e setores municipais permitiu identificar que muitos problemas de continuidade não decorrem da ausência de trabalho técnico, mas da fragmentação das informações produzidas ao longo dos anos.

Levar essas experiências ao Simpósio do ICOMOS Brasil contribuiu para inserir os desafios municipais em uma discussão de alcance nacional, aproximando a pesquisa acadêmica da prática cotidiana da gestão do patrimônio cultural.

Durante a apresentação, Uillian também compartilhou o processo de construção do AGC – Ambiente de Governança Cultural, desenvolvido para organizar e integrar informações dos municípios atendidos pela Cultura das Gerais.

O ambiente busca reunir documentos, responsáveis, prazos, decisões, evidências e dados sobre os bens culturais, oferecendo melhores condições para o planejamento, o acompanhamento e a continuidade das políticas públicas.

Mais do que apresentar uma ferramenta tecnológica, o trabalho propõe uma nova maneira de pensar a preservação: deixar de administrar documentos e ações de forma isolada para começar a compreender e governar as relações que formam o patrimônio cultural.

“O AGC é uma possibilidade, mas pensar sistematicamente é o princípio. Precisamos deixar de administrar fragmentos da preservação para começar a governar relações”, afirmou Uillian.

Intercâmbio e fortalecimento institucional

Além da apresentação do trabalho, a programação em Belém proporcionou contato com pesquisadores, gestores e profissionais de diferentes regiões do Brasil, além de atividades técnicas e visitas a importantes referências do patrimônio paraense.

A participação no Simpósio reforça a presença de Uillian Santiago e da Cultura das Gerais nos debates nacionais sobre preservação, gestão cultural e inovação. Também amplia o intercâmbio de conhecimentos que poderão ser aplicados no trabalho realizado junto aos municípios mineiros. Ao relacionar memória, governança e transformação digital, a proposta apresentada aponta para um caminho necessário: utilizar a tecnologia não apenas para armazenar documentos, mas para fortalecer instituições, preservar a memória das decisões e